O mês é amarelo e eu também sou


Oi, meu nome é Gabriela Cadamuro e depois de três anos eu decidi falar abertamente sobre a minha depressão. Sei que isso pode ser perigoso, sei que posso ser julgada e apedrejada pelas minhas atitudes passadas, mas, infelizmente, eu não sou a única. Sou uma de milhares de pessoas que tentaram suicídio ou que tiveram depressão. Você quer entender o que aconteceu comigo e porque estou contando isso à vocês? Continue lendo.

"Minha melhor amiga morava quase do outro lado do país. Meu pai estava começando a fazer de mim "um tanto faz" na vida dele. Eu estava com 15 para 16 anos, uma fase em que qualquer adolescente sofre mudanças hormonais e mentais. Eu estava muito frágil por causa de um término de namoro - ah, como fui tola - e minha casa não estava muito boa, o ambiente familiar não me proporcionava amor. E bem, eu sou dependente de amor e atenção.

Há vários motivos para uma pessoa entrar em depressão, o meu pode parecer banal para quem está de fora, mas não foi para minha saúde. Acabei colocando minha credibilidade e minha falta de atenção dentro de casa, em uma pessoa que conheci pela internet e que depositei minhas esperanças de ser feliz. Elas eram falsas. Eu criava ilusões na minha própria cabeça por ser uma adolescente perdida e em uma fase complicada. 

Tudo começou quando essa pessoa que conheci começou a me tratar mal. Eu me via sozinha, sem pais, sem minha melhor amiga e sem meus amigos. Eu era uma nerd na escola e todos me odiavam por ser muito certinha e adorada pelos professores. Isso também ajudou na depressão. Cortei meus pulsos e hoje contabilizo mais de 27 cicatrizes, uma que deveria ter dado pontos, mas como eu escondi de todos, não foi. Hoje as escondo com relógios, pulseiras e outros adereços. Maquiagem não funciona e minha única saída agora é uma tatuagem.

Fiquei até os 18 anos vivendo em uma depressão ansiosa - fui diagnosticada assim pelos médicos e psicólogos pelos quais passei - que me deixava maluca cada dia mais. Fiquei todo esse tempo cortando com faca, estilete, gilete e outras coisas afiadas, meu pulso e minha cintura. Depressão! 

Tive outros motivos para entrar na depressão, motivos estes que infelizmente, para preservar minha família, não posso contar, mas que foi uma das chaves para que tudo se desenrolasse no fim. 

Como eu saí disso? Por vontade própria, pelo amor da minha mãe que passou noites no hospital comigo depois que eu ingeri quantidades significativas de veneno para rato. Pelo amor da minha melhor amiga, que mesmo do outro lado do país me dava força, me ligava, dizia que me amava. Pelo meu irmão, tão pequeno mas que precisava tanto de mim... O que eu demonstraria pra ele fazendo isso?

Bem, foi por força de Deus, por rezar, por pedir e implorar. Hoje eu não estou curada. Ainda tenho sequelas da depressão ansiosa, mas não como antes. Não preciso de remédios para controlar isso e não penso mais no suicídio, mas eu ainda me culpo por tudo, pelos erros dos outros. Eu ainda choro muito, sinto muito e me machuco muito atoa.

Hoje é comemorado o "Setembro Amarelo", um apoio às pessoas que já tentaram o suicídio ou conseguiram. Por favor, se conscientize e pare de dizer que pessoas depressivas ou que já tentaram ou conseguiram o suicídio são: burras, idiotas, infantis, atoas entre outros adjetivos que eu ouço todos os dias. Não é frescura, não é drama. É DOENÇA e precisa ser tratada. 

Gabriela Cadamuro, escritora do Cranela".


O que é o Setembro Amarelo?

Olá leitores Cranela, estamos nos primeiros dias de setembro e a cor do momento é o amarelo, visto que acontece nesse mês um movimento de conscientização importantíssimo. O setembro amarelo se trata do suicídio, prática alarmante, e que, contudo ainda não é tão divulgada. Afinal os dados confirmam um número drástico de mortes no Brasil, que poderiam ser evitadas, através da prevenção e intervenção.
Setembro chega para dar voz àqueles que permaneceram por muito tempo em silêncio, e que necessitavam às vezes somente de serem ouvidos, de serem olhados devagar, porque no mundo atual as pessoas tem se olhado de maneira depressa demais.
Então se você ai já pensou em suicídio ou já tentou, saiba que não está só, e que esse movimento, veio em busca de dizer entre outras palavras que queremos que você fique, porque sua dor é valida e a partida dela ainda mais, para que a felicidade enfim chegue, e que você descubra a beleza em viver.
Contudo, se você ai também não pensou, esse mês também é para você, afinal identificar pessoas em situação de risco é extremamente importante. Escute atentamente essas pessoas, as mesmas irão dar sinais através da expressão do comportamento, ou irão dizer que pensam em se matar, e se você pensa que quem diz não comete à tentativa, engana-se. Desse modo dê atenção a essas pessoas, pois a busca é que seja setembro todos os dias, e que essa conscientização se perdure por muito tempo, para que possamos salvar vidas valiosas. 
Larissa Araújo, Colunista

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